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Dois coelhos e uma cajadada muito certeira

Confesso que assistir um filme nacional é sempre motivo de preguiça pra mim. Quase sempre é a fórmula: wannabe Cidade de Deus ou enredo de novela pra duas horas de projeção. Não tendo alternativa, lá fui eu (aliás, já pode desejar um cinema igual ao do Shopping Cidade Jardim em Goiânia?). E posso dizer? Ainda bem que não tive alternativa!!

A história de 2 Coelhos pode até ser recorrente no cinema brasileiro: um jovem de classe média espremido entre um mundo de corrupção, impunidade, valores deturpados, violência e sua própria consciência. Mas tudo no filme é diferente, e ainda assim agrada aos dois tipos de público que podem ser atraídos para a trama. Vou tentar dar a minha opinião desses dois pontos de vista.
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Para o público que está em busca de entretenimento simplesmente, o filme não deixa nada a desejar às produções estrangeiras. A estética é um mix de quadrinhos e videoclip. A edição e a trilha são secas, rápidas, ágeis. Em algumas cenas pensei em Tarantino e Rodriguez, com menos tripas e sangue. Em outras pensei em Guy Ritchie. Os efeitos de pós produção e as referências são atuais, como por exemplo quando o personagem principal, Edgar, se transforma num bonequinho de GTA.

Toda essa movimentação torna a história tensa, sendo impossível não prender a respiração em alguns momentos mais críticos. Se não fossem as doses de humor e a trilha para fazer o contraponto, seria um daqueles filmes que fazem as pessoas sairem do cinema, por não aguentar a sequência de violência e efeitos visuais alucinantes. Esses elementos por si só já garantem a diversão de quem só quer ver um pouco de ação.

Agora de um outro ponto de vista temos uma história e uma lição muito opostas a todo o direcionamento visual do filme. O que temos é um roteiro excepcional, que recebeu uma direção ainda melhor. Não sei se posso falar em tempo psicológico. Para mim o tempo do enredo não deixa de ser cronológico apesar das idas e vindas, que estão ali com o efeito de reforçar ainda mais a tensão provocada (se você se lembrou dos filmes de Gaspar Noé aqui, ponto!!).

As atuações são fortes, porém não a ponto de serem caricatas e imprimem a cada um dos personagens o drama, o conflito vivido e - porque não - a naturalidade com que hoje algumas pessoas se envolvem com o crime e a corrupção. Destaque para Marat Descartes e a mulher da minha vida, srta. Alessandra Negrini, com seu constante jeitinho de irresistível e doce desequilibrada.

Enfim, mais do que um conjunto de efeitos visuais avassaladores e retrato (fiel ou não?) da política, sistema judiciário e falcatruas da sociedade brasileira, 2 Coelhos pra mim é um filme muito intimista sobre redenção, palavra que curiosamente passou a semana no meu vocabulário particular. Recomendo que assistam de coração aberto à mensagem e à reflexão.