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Arezzo e algumas outras ignorâncias

Um pouco tarde, mas está saindo a minha contribuição para a blogagem coletiva sobre a questão do uso de peles naturais na moda. Cada autor pegou um viés da questão, vamos ao meu. A história todo mundo já sabe: A Arezzo lançou a coleção Pelemania, com vários produtos de pele natural, de raposa, coelho, ovelha. Geral se inflamou nas redes sociais, o que levou a marca a retirar das vitrines o casaco de pele de raposa. Eu, lógico, me inflamei e fiz parte da multidão revoltada.

 

O que mais me chamou a atenção nessa discussão toda foi a afirmação de muitos que é hipocrisia protestar contra o uso de peles, porque eu uso sapato de couro e porque eu como carne. Não culpo a falta de informação de algumas pessoas, mas o mais curioso foi ter visto muita gente dita esclarecida com o mesmo questionamento. É nesse ponto que vou me concentrar.

 

Eu como carne de ave e de boi (ou vaca, que seja) e tenho no meu guarda roupa sapatos de couro bovino. E não me considero nem um pouco hipócrita por brigar pela causa. O consumo de carne é inerente ao homem. Conheço muitas pessoas que como eu são loucas pra ser vegetarianas, mas não conseguem, por restrições médicas. A pecuária de corte é uma das principais atividades econômicas do país. Como bem mostraram os críticos, praticamente todas as partes do corpo do animal servem pra fabricar alguma coisa, de açúcar a sapato. Concluindo, não se mata um boi apenas por sua carne ou por sua pele, como é o caso de chinchilas, raposas, bebês focas.

 

Acredito que todo ativismo deve ser inteligente, e é aí que a maioria das pessoas não vê a realidade. Seria lindo e ideal que não comêssemos carne, usássemos couro nem nada disso. Mas algumas mentalidades e necessidades coletivas não poderão nunca ser mudadas, não sou inocente a ponto de acreditar nisso. Ou alguém acha que todas as pessoas um dia vão parar de comer carne no mundo? Mas acredito em pequenas batalhas e pequenas vitórias, e destas serem parte de algo maior, mesmo que não pleno. Como assim? Acredito que estou fazendo a minha parte reduzindo muito meu consumo de carne. Já que não posso ficar sem, não esbanjo. Não vou em churrascarias, por exemplo. E não como carnes "diferentes" como jacaré, rã, e animais que não são abatidos em larga escala, e cuja matança poderia ser mais facilmente erradicada. O que tem de couro no meu guarda roupa é tudo coisa antiga, de épocas que eu não me importava muito com isso. Hoje me rendi aos sintéticos. E nenhum desses fatos tira a legitimidade da minha luta, a meu ver.

 

Existem várias outras questões? Claro! Animais abandonados, rodeios, touradas, e a lista é imensa. Mas vem cá, você dá conta de abraçar o mundo? Ninguém dá, e todo mundo já ouviu falar que concentrar-se num problema de cada vez é sempre mais eficiente. E é assim, que eu luto, um dia de cada vez, comemorando cada vitória. E garanto, não fico só twittando do sofá. Sempre que posso me envolvo em manifestações, vou pra rua. Isso faz de mim muito mais ativa do que muitas pessoas, e nada hipócrita. E outra, não julgo a turma da revolução do sofá nesse caso da Arezzo. Olha o tanto que foi útil!!

 

Enfim, essa é minha opinião. Para fechar, algumas considerações finais: a Arezzo não é a única marca vendendo pele natural. Fiquem de olho e sempre questionem. E o mais importante, NÃO COMPREM! Eu tinha dito que estava satisfeita com a posição da Arezzo, mas voltei atrás e não estou. Apenas as peças de pele de raposa foram retiradas das lojas e em entrevista, o presidente que teve uma grande chance de tentar reverter o quadro a seu favor, acabou sendo insensível à causa. Não assumiu responsabilidade alguma. Tipo, "faço isso pra calar a boca de vocês, mas continuo achando que estou certo".

 

E pros críticos e reclamões de plantão, criticar por criticar só te torna mais inútil e chato. Pensar em assumir uma postura mais ativa e consciente pode ser útil para algo que um dia vai se reverter em bem pra você mesmo, seus amigos e sua família.

 

Essa postagem faz parte de um movimento de blogagem coletiva sugerido por mim no Luluzinha Camp. Confira aqui o post original e outras postagens de blogueiras Brasil afora.